deita-se, cansado, o verso de adormecer em ti, a estrofe sem sonho que adormecido componho;
deita-se, cansado, o poema sem tecto, o menino deserto –
a saudade que sem ordem me ordena, o abraço que sem gente me condena.
adormeço na tua voz como o mar
adormece na pedra, como a criança
se corre e se berra.
adormeço na tua voz sem saber que é em ti que acordo, corro e recorro –
na tua voz como um verso, no verter molhado do teu corpo, poema insano da minha pele;
adormeço na tua voz, calado e em grito, a deixar de céu o chão que piso, a dizer-te em palavras
o milagre do teu olhar, o deus e o trono das tuas mãos de sempre.
adormeço na tua voz como se me fosse o herói vergado do filme da estrada, o vencedor pregado
ao pó dos dias, ao rumor do ouvido onde me sussurras a vida e onde me fazes irrepetível mim.
na terra onde se beija o teu rosto, há a lágrima que sem querer derramo, o frágil bebé
do teu colo, a concha e a lapa de um suor que em nós se perde de dono.
na terra onde se beija o teu rosto, adormeço na tua voz, cansado –
e estendo-me para o mundo na direcção de todo o lado.
queria saber dizer o que te sinto, saber explicar que vejo em ti o que nem deus se vê no mundo;
queria saber dizer o que sabe em mim quando me sei em ti.
queria saber dizer o que ninguém sabe dizer –
porque não se diz o que é como nunca se foi, o que é verbo sem pretérito, futuro sem fim, por certo.
queria saber dizer o que ninguém sabe dizer –
e apenas assim, na paisagem de nós, adormecer.
