As crianças de hoje não prestam para nada. As crianças de hoje não prestam para nada porque os pais de hoje não prestam para nada. As crianças de hoje deviam estar no museu - e não na rua. E tudo porque os pais de hoje pensam que as crianças de hoje, as suas crianças, são cristais e não gente. Que nojo.
Os pais de hoje metem nojo. Metem nojo porque fazem as crianças de hoje ser nojentas. Ai que a criança cai, ai que o menino se magoa, ai que a menina está a chorar. Para a bosta com isso tudo. Para a bosta com o excesso de não-excessos. Para a bosta com crianças de museu. Eu prefiro crianças a sério - e não as crianças de brincar que só podem brincar se não correrem o mínimo risco de se magoarem. Para a merda com estes pais de hoje - com estes nojentinhos de hoje. As crianças de hoje não merecem os pais de hoje. Nenhuma criança merece os pais de hoje. Melhor: ninguém merece os pais de hoje. Que nojo.
Os pais de hoje são os reis das pinoquisices. Os reis da in-necessidade, os senhores da pucuinhisse. Os pais de hoje são os patronos de todos os Marias Amélias. E é por isso que depois os filhos dos reis das pinoquisices se tornam em verdadeiros pinoquiseiros. Que nojo. As crianças foram feitas para cair, para se magoarem, para rasgarem a pele e voltarem a ganhar pele. O mundo, o dos adultos e das crianças, é exactamente igual: estupidamente igual. Há que brincar, cair, magoar, levantar, voltar a brincar, voltar a cair, voltar a magoar, voltar a levantar. E a ordem pode ser trocada mas é sempre a mesma. Há que doer para viver: e até doer dá sabor a viver. É de pequeno que se percebe o caminho. E no caminho há que levantar sozinho. E não existe não levantar sozinho: quando cais, só podes levantar-te sozinho. Por mais mãos que te puxem, por mais braços que te agarrem: quando te levantas, levantas-te sozinho. E as crianças de hoje não se sabem levantar - porque os pais as impedem de cair. Que nojo.
As crianças de hoje não sabem o que é viver. As crianças de hoje são crianças de aviário - crianças que nunca saíram do fraldário. As crianças de hoje não sabem o que é viver porque viver é correr riscos. E correr riscos não é subir mais um nível no último jogo da Playstation ou da Wii. As crianças de hoje transformaram o ai da descoberta e o ui da queda que precede o erguer pelo Wii. Um bacoco e sem som interno Wii. Há uma Wii onde devia estar um ai ou um ui. As crianças de hoje não sabem o que é viver porque os pais de hoje não sabem o que é viver. Os pais de hoje vivem-se nas suas crianças e esquecem-se de que são elas, as crianças, que têm de se viver. E têm de ver o sol como têm de ver a chuva. E têm de gritar que dói como têm de saber como fogem ao que mói. Os pais de hoje são mais crianças do que as crianças, mais acagaçados do que o cagaço. Os pais de hoje pensam que para evitar o hoje devem evitar o hoje e todos os hojes. Mas hoje, isso é garantido, chega. Hoje chega e traz consigo tudo o que tiver de trazer: esteja a criança junto ao risco ou longe do risco, o risco vai chegar sempre à criança. É claro que há, hoje, perigos que antigamente não havia. Há as drogas e as nets e os tarados e os mil e um caminhos de tentação. Há os carros e as altas velocidades, há as doenças que se passam como pastilhas elásticas. É claro que há isso tudo e sempre vai haver isso tudo. Mas também o sol, a rua, os amigos que correm e saltam e gritam e partilham. Há o beijo, o abraço. Há descobrir, há experimentar. Há o haver. E o haver, para os pais de pinoquisices de hoje, é uma seca que mais vale não haver. Que mais vale não ver. Que nojo.
Já não se fazem crianças como antigamente. Já não se fazem crianças que passam o dia a pedalar e a fazer das mãos um planeta e do sonho um amigo. As crianças de hoje não sabem, porque os pais das crianças de hoje não sabem, que a pele das crianças foi feita para cair e para rasgar. As crianças de hoje não sabem que têm pele de criança - que se regenera à velocidade da luz e que é, ela mesma, uma forma de luz. As crianças de hoje não sabem, porque os pais das crianças de hoje não sabem, que os ossos das crianças são mais elásticos - para poderem ser os sonhos que as crianças sonham, os anseios que as crianças anseiam. As crianças de hoje estão escondidas de viver, apeadas de ser. As crianças de hoje são - mais do que os adultos de amanhã - as crianças de amanhã. As crianças de museu, que não sabem que estar vivo é a melhor coisa do mundo. De todos os mundos. De todos os universos e galáxias e o diabo e o deus a quatro ou a mil. As crianças de hoje são crianças que se abdicam de ser de hoje - crianças impedidas do hoje: impelidas a sobviver. A viver sob. Sob o tecto de um medo que não é delas. Sob o tecto de um medo viral – uma SIDA de alma, que destrói as defesas que nasceram para defender. Sim: sobviver. Mas sobviver – como sobreviver - é uma treta. Sobviver é uma treta para as crianças e para os adultos. Sobviver mata. Sobviver mata mais do que morrer. Que nojo.
