Manifesto: pelo inalienável direito ao ciúme


O ciúme é um amor. Um querido. Uma verdadeira preciosidade. E a verdade é que já não há ciúme como antigamente. O ciúme de hoje é um ciúme poucochinho, um ciúme de trazer por casa, um ciúme da loja dos trezentos. O ciúme está, mais do que a economia, em crise. E, tal como na economia, não é na austeridade que está a resposta – até porque foi a austeridade que nos levou até à crise. Poupar? Reduzir custos? Olha: o tanas. A solução para a crise, para qualquer crise, é fazer exactamente o contrário daquilo que levou à crise. Se foi a contenção de ciúme que gerou a crise de ciúme, nada mais simples: há que erigir ciúme. Produzir ciúme em doses maciças, fazer de ti um dos maiores produtores de ciúme do mundo. Eu, pela minha parte, faço o que posso. E posso mesmo garantir que não me estou a sair nada mal. Vá: não fiques com ciúmes.


Uma relação sem ciúme é como um país sem governo. O que, parecendo que não, dá em porcaria da grossa. Basta olhares para Portugal para o perceberes. Uma relação sem ciúme é uma ralação. Uma tremenda seca. Alguém que é capaz de se entregar a outro sem temer, nem por um segundo, que esse outro não o retribua só a si é alguém que não ama; é alguém, isso sim, que grama. Que grama estar acompanhado, que grama saber que tem alguém ao lado, que grama o conforto de uma relação. Mas quem grama não ama. Gramar é o exacto oposto de amar. Amar é ser do amor. Ser só do amor. Ser aquilo que o amor é. Ser aquilo que o amor manda. Ser amor. Ser só amor. Amar não pode ser gramar porque gramar suporta. E amar importa. E importa-se. Importa-se com tudo que possa criar obstáculo ao amar. Ao só amar. Quem ama não grama. E acima de tudo não grama quem grama. Quem ama não é gramável. Nem sequer é amável. Quem ama ama. Simplesmente isso: quem ama ama. E está-se nas tintas para quem não o grama.


Quero defender o ciúme. Defendê-lo até à exaustão. Defender o ciúme que não se deixa pisar pelo politicamente correcto, o ciúme que não se esconde na capa de um sorriso, o ciúme que se mostra com orgulho em toda a sua pujança, o ciúme que não se apaga só porque leu numa revista no consultório dentário que ter ciúmes não se faz. Mas faz-se. Ter ciúmes faz-se. E faz-te. Faz de ti mais amor, mais realidade, mais verdade. Ter ciúme é ser inseguro. E só quem é inseguro oferece segurança. Quem é inseguro sabe que acaba, sabe que um dia acorda e não consegue acordar, sabe que um dia quer e já não pode (até com “f”), sabe que um dia sonha ir e já não dá para ir. Quem é inseguro sabe que o que existe vai deixar de existir. E existe. Quem é inseguro existe. Existe em pleno. Existe no que é. E luta pelo que é e quer manter como é. Quem é inseguro ama com urgência. E só se ama com urgência. Só se ama como se numa ambulância, como se no último respiro, como se no último afago. Só se ama com urgência. Só se ama como se acabasse no segundo seguinte. E por isso o segundo, este, exactamente este, é o segundo final. E amar só é, só tem de ser, uma sequência de segundos finais, uma interminável (mesmo que terminável) sucessão de segundos finais entre quem se ama. Amar é inseguro, amar é ciúme, amar é urgente. Amar – quando é amar - é-te tudo. E é tudo.


Eu luto pelo direito ao ciúme. O direito consagrado na Constituição – na nossa, na minha e na tua e na de toda a gente, constituição. O ciúme que, como parte integrante de quem ama, é seu constituinte. Eu luto pelo direito inalienável ao ciúme irracional – mas não animal. Ao ciúme que cuida, que protege, que está vigilante. Eu luto pelo ciúme que quer bem e que se quer bem. Todos os dias, para sempre – na eternidade possível. Eu luto pelo direito ao ciúme que actua – mas que não autua. Ao ciúme que faz, que quer ser melhor, que quer preservar para melhor poder amar. Eu luto pelo direito ao ciúme. Ao meu, ao dele. E também ao teu. Por falar nisso: a tua esposa manda-te, daqui, um beijo. E avisa que vai chegar tarde para o jantar hoje.