Aqui: Só os Feios é Que São Fiéis



A força do humor, a força da ironia – e a capacidade de olhar para além do olhar. Perscrutador e arguto, Pedro Chagas Freitas tem feito história, com as suas já célebres crónicas semanais, publicadas no jornal “Notícias de Guimarães”, em que se debruça sobre temáticas sérias ou nem por isso. Mas sempre com uma forma singular de pensar e de fazer pensar. Porque é por entre sorrisos que, muitas vezes, se consegue chegar a por entre a dor.



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O lambe-botas é o visco da sociedade – merecedor de menos respeito do que o ladrão ou o burlão. O lambe-botas pode ser tudo aquilo que a bota que quer lamber quer que ele seja. O que faz de si, basicamente, tudo aquilo que, no mundo, se pode encontrar de mau. O lambe-botas é ladrão, violador, serial killer – até político. O lambe-botas é o parente rico do borra-botas. Melhor: o lambe-botas é um borra-botas cobarde. Um borra-botas que, depois de as borrar (às botas) do mais pegajoso dos excrementos, não se coíbe de, de imediato, as lamber – até ficarem imaculadas e lustrosas. O lambe-botas não tem, efectivamente, qualquer nojo de limpar cocós. E é isso que lhe permite ser capaz, ainda, de se manter minimamente asseado.


Há duas espécies de lambe-botas. É tempo de – Deus nos livre – as conhecer melhor.


O lambe-botas pegajoso é o lambe-botas dos pequenos. O lambe-botas que vai subindo a escadaria da sociedade de língua de fora. O lambe-botas que não se importa de perseguir, até à exaustão, quem tem as botas que ele, um dia, quer calçar. Nem que saiba, e está farto de o saber, que as botas não lhe servem. Mas até isso, um par de botas que não lhe servem, lhe serve. O lambe-botas pegajoso consegue o que quer por desistência alheia – tanto mói que conquista. É um maratonista: um corredor de fundo. E é essa, no fundo, a sua única forma de sobrevivência.


O lambe-botas seboso, por seu turno, é bem diferente. Sabe que não vale nada. E é isso o que, na verdade, lhe vale. Lambe sem olhar a quem, lambe por todo o lado e a toda a hora. E é capaz de, depois, colher dividendos disso mesmo. Como sebo na pele, conhece intimamente tudo o que vai acontecendo: sabe cada truque, cada artimanha, cada esquema daqueles a quem já, um dia, lambeu botas. E sabe, também, que eles sabem que ele sabe como pode rentabilizar isso a seu favor. O lambe-botas seboso sabe demais. E sabe demais de muitos mais. E é por isso que acaba por ter quase todos os demais na mão. O lambe-botas seboso cheira mal, toda a gente sabe que cheira mal. Ninguém gosta, na verdade, do lambe-botas seboso. Mas ninguém consegue, na verdade, parar de lhe arranjar botas para calçar. Quem tem botas, já se sabe, tem medo. E tu: que número calças?



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É uma das 10 obras que lançarei muito brevemente – em edição limitada e autografada.

Para reservar, desde já, um exemplar de ”Só os feios é que são fiéis", envie e-mail com título da obra, nome e morada para

fabricadeescrita@gmail.com

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