Aqui: Porque Ris, Sabendo que Vais Morrer?


O que é que eu sei? Sei somente que saí com o Vítor e quando dei por mim já ele me tinha apresentado a ti – lembras-te? Eras uma amiga recente dele e lembro-me de ele me ter dito, em tom de aviso: agora vou apresentar-te alguém que não é apresentável, é comestível e é só.

Não entendi o que ele quis dizer com aquilo.

Olhaste-me com os seios erectos a rasgarem o fino vestido lilás– que raio de nome– e fiquei fascinado com o volume do teu olhar. O volume é algo que existe desde sempre e que só traz problemas atrás de si. Todas as guerras são uma questão de volume, foi o que eu não pensei na altura, apesar de tu o teres dito com a convicção e a sobriedade de quem tinha acabado de dizer uma verdade universal.

Conversámos algum tempo sem conversar. Foram alguns segundos em que os meus olhos me guiaram para todo o lado, menos para os olhos da pessoa que estava diante de mim – eras tu, lembras-te? Só imaginava as minhas mãos esfomeadas de contacto a percorrer desenfreadamente aquele sexo feito corpo que tu és.

Depois de ver aquele sexo em forma de mulher nada importava a face que dava a cara por ele.

Se quiseres, posso tirar o vestido, disseste-me, com a tua mão a tocar-me o corpo feito pénis. O corpo é mais fácil de ser partilhado que a mente. Não mostro o que penso a ninguém – estavas a fazê-lo ao dizê-lo –, é muito pessoal, mas o corpo, esse, é do mundo, é para toda a gente ver. Se assim não fosse Deus faria tudo ao contrário. A mente estaria por fora, com os pensamentos bem à vista, e o corpo lá por dentro, escondido dos olhares alheios, camuflado pelos neurónios. Não achas? Os meus olhos gaguejaram enquanto te dizia que sim e te olhava para a face, pouco preocupado que ela até fosse pouco ou nada atraente.

Afinal os sexos não são para ser bonitos.

Unimos os desejos em minha casa ao som do Peter Murphy e com as janelas e cortinas abertas gritaste a letra toda do “Strange Kind of Love” aos saltos em cima de mim. No fim fizeste-me prometer que não me iria apaixonar por ti e confessaste que me tinhas enganado.

Não te chamavas Carla.

Eras Joana e o orgasmo tinha sido fingido.

in "Porque Ris, Sabendo que Vais Morrer?"


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É uma das 10 obras que lançarei muito brevemente – em edição limitada e autografada.

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