
- Fugir não são braços separados.
- Não fugir são braços apertados.
- Não fugir são sexos abraçados. Vamos a isso?
- Não acredito em sexos enquanto demonstração de crenças. Os sexos mentem.
- Acredito no meu sexo. Nunca me mentiu. Quando me ordena prazer quer prazer. Nunca me engana.
- Acreditas que tudo o que nos define se situa ao nível do sexo?
- Tento não acreditar de forma consciente. Acredito como respiro – sem o sentir; o ar entra e sai sem que eu faça qualquer esforço consciente para o fazer; acredito sem fazer qualquer esforço consciente para acreditar.
- Como separas o que acreditas do que não acreditas? Como defines no que deves ou não acreditar?
- É uma separação intuitiva. Faço e o que faço separa antes de eu decidir. Depois decido.
- Decides antes de decidir.
- Sim. A minha decisão é um processo posterior ao da selecção da decisão.
- …
- É como um pote com muitas possibilidades; um sorteio de possibilidades. Tens uma opção para tomar e alguns papéis dentro de um pote. Pensas estar perante um sorteio, em que decidirás de forma completamente aleatória; mais do que isso: pensas que a decisão está – literalmente – nas tuas mãos; nas mãos que vão extrair do pote um dos papéis – uma das possibilidades. Mas na verdade o sorteio está viciado. Na verdade dentro do pote estão muitos papéis mas todos têm exactamente a mesma decisão estampada. Está decidido antes de te ser dada a oportunidade de decidires.
- És decidida pela decisão. Não te sentes usada?
- Sou uma usada assumida. A frontalidade sempre me fascinou.
- E não temes que a decisão que te for dada a decidir esteja errada?
- É uma possibilidade. Mas estou sempre a salvo.
- Nunca decides.
- Só decido quando decido bem. É a parte cobarde do meu método decisório. Se a decisão for correcta assumo-a enquanto minha. Se a decisão for errada entrego o ónus da responsabilidade à própria decisão. Afinal, foi ela que decidiu antes de mim.
- És uma adjunta do que decides.
- …
- Adjunto é a profissão perfeita; quando tudo corre bem recolhe os louros ao lado do líder da equipa; quando as coisas correm mal exime-se de assumir a responsabilidade. Sai tão incólume da derrota como sai da vitória.
- Sai mais incólume da derrota que da vitória. A vitória pode transportá-lo para degraus mais elevados.
- Sim. Mas ao chegar aos patamares mais elevados deixa de ser adjunto. E passa a estar disponível enquanto alvo perante as balas que em redor são disparadas.
- Gostaria de me manter sempre como adjunta.
- Esse é o sonho que todos perseguem.
- Poucos o alcançam.
- Ninguém o alcança. Passar incólume à vitória e à derrota é possível. Mas não é possível passar incólume à tentação de olhar para cima.
- Depois de olhar não paras de olhar.
- Olhei-te um dia e hoje estou aqui.
- Queres os braços?
- Quero a crença.
- Não acredito que seja possível. Desculpa.
- Regressemos ao início.
- Onde é o início?
- O sexo. Desta vez vou deixar-me decidir.
- Quantas hipóteses restam no pote?
- Quatro.
- Que hipóteses restam no pote?
- Orgasmo, orgasmo, orgasmo e orgasmo.
- Isso mesmo. Vejo que estás no caminho certo.