
queria ser sombra, harpa encantada – beijar os seios da terra molhada, saber aos ombros da folha sem nada. queria ser erva, sorriso, momento – escrever sem acento, amar o tormento. ser - num momento. queria ser grave, sangue vivido – chorar como ave, voar como trave: beber a mulher, saboreá-la à colher. queria ser criado, mordomo, assomo – subir pela noite, venerar o açoite. ser - num momento. seria a pedra, seria o grito, seria as ondas – onde sofre o aflito. seria os olhos, seria a fonte, seria a guerra – onde morre o monte. invadia o corpo, silenciava os lençóis – cravava o dorso em dedos anzóis. seria - num momento. seria a morte, seria as flores, seria bêbado – de todas as cores. seria a fome, seria o ventre, seria o sal – da minha vida entre. desnudava a urze, curvava a videira – ardia nos cabelos da poética fogueira. seria - num momento. e não fui torso dobrado, e não fui espírito queimado – fui gula, pecado, enleio. fui-me da cor – e deixei-te no meio. fui-me na dor – e cortei-te sem freio. fui coração jumento: cruel sem tento. fui-me-te - num momento.