In jornal "O Povo de Guimarães"O adeus às obras leves
A sala do Cybercentro de Guimarães foi pequena para acolher a sessão de apresentação da obra "O Evangelho da Alucinação", o segundo livro de Pedro Chagas Freitas. Muitos ouviram de pé as palavras do escritor Teixeira Moita, que apresentou a última obra "leve" do jovem autor.
O dramaturgo, o primeiro que no autor reconheceu "o escritor", acredita que "O Evangelho da Alucinação" vai deixar "uma marca" na literatura portuguesa. "Não é um livro qualquer. É um texto que vai ter efeitos (que podem não ser imediatos) a nível estético e estilístico, no futuro", garantiu.
Excluindo o conteúdo e centrando-se na forma, Teixeira Moita encontrou no texto "muita semelhança com a linguagem bíblica". A prosa poética de Pedro Chagas Freitas é construída de "frases curtas, incisivas, directas, pesadas, densas, o que de certa forma se aproxima muito da linguagem bíblica", que é "realmente aforística, sem grandes descrições, sem grandes preparações", explicou. Como a Bíblia, "O Evangelho da Alucinação" deixa "espaço para muitas interpretações".
O dramaturgo elogiou a "forma conceptual extremamente original" do escritor vimaranense. "Este texto quase nos leva a um certo distanciamento, mas esse distanciamento tem uma ambivalência, uma dupla eficácia: quanto mais nos sentimos afastados da personagem mais nos sentimos fascinados", resumiu.
"É uma proposta extremamente conseguida. Temos aqui um texto de grande qualidade a nível conceptual e estilístico...mas sem nunca perder de vista o conteúdo, a substância", acrescentou.
Segundo o crítico literário brasileiro Paulo Polzonoff Jr., que assina o prefácio, o autor "destrói o sentido tradicional do verso não pelo simples prazer de ser rebelde; ele o destrói com a finalidade clara de nos transportar para um mundo que não conhece as regras claras da poesia tradicional. Não é um espírito juvenil que nos guia por esta forma desregrada de dizer. É um espírito maduro, cuja moldura mais adequada, descobriu, é a prosa. Ainda que ela fale a língua da poesia – o que é quase uma bênção. Melhor ainda é perceber que esta bênção é resultado de uma prece cantada. Os verbetes deste microdicionário são escritos como se fossem música…”
Pedro Chagas Freitas reconhece que "O Evangelho da Alucinação" não é um livro fácil, não só pelas história que encerra, "mas acima de tudo pelo molde textual que escolhi, pela estilística do próprio texto, que acaba por romper de forma intencional com algumas regras que muitos julgariam, talvez, intocáveis".
Ao leitor pede um exercício de contemplação, "atenção" e "abstracção", afinal, a predisposição com que qualquer sujeito se abeira de um objecto artístico.
"O objectivo (do texto) será retirar o leitor de si mesmo, mas com o objectivo de o devolver ao Eu, a si mesmo. Ao retirá-lo de si, estamos depois a entregá-lo ao Eu de uma forma diferente. O objectivo era esse", procurou explicar à plateia atenta. "Por isso mesmo, é um livro que é todo escrito a um Tu", continuou, parecendo desejar que algures o exercício de escrita se cruze com o esforço de leitura.
Para o autor foi a última obra leve. "Leve, não no sentido do conteúdo, mas no sentido da quantidade. Sinto que chegou a altura de alongar em tamanho o que escrevo", anunciou. "O Evangelho da Alucinação" já tem "alguns vestígios das obras pesadas que se avizinham". O primeiro "sinal" está precisamente no plano da estilística. "Isto será talvez o primeiro esboço da minha voz num registo mais longo", que o escritor denomina de "guião reflexivo", e onde procura "colocar frente a frente a acção inerente a um guião, versus a teorização inerente a essa acção". Encontrar o balanço entre os dois campos constitui o maior desafio para o autor.
"O Evangelho da Alucinação" foi editado pela Corpos Editora.