Aqui: a crítica


In Jornal "EXPRESSO"

"Um homem idoso, casado, renuncia a uma vida de limitados horizontes, mas sofrível, ao perder-se de amores por uma jovem paralítica. Em tão extemporâneo enleio vai colaborar a própria esposa, presa de paixão pelo infeliz e capaz de tudo para trazê-lo satisfeito. O fim não será de festas.
Eis compendiado "Mata-me", a novela com que Pedro Chagas Freitas (25 anos, jornalista, publicitário, cronista) acaba de estrear-se na ficção. É uma entrada de repelão, esta, que acumula cenas seguramente chocantes. As coisas vêm de longe, como na vida. A infância do protagonista não foi um enlevo, e ainda hoje a mãe só vive com um anseio: desaparecer.
A "menina paralítica", ainda mais fustigada pela vida e programada para destruir tudo nas cercanias, irrompe na existência do homem e dá nele folga a idêntica ânsia de ruína.
É a receita da tragédia clássica, onde tudo e todos conspiram para a eficiente devastação final. O tom da desgraça há-de manter-se todavia sumido, pacato, lusitano, relatando uma vida "quieta de corpo com uma alma em movimento" e onde se descortina, amiúde, "o semblante bom do olhar do mal".
São um pungente Raul Brandão e um torturado José Luís Peixoto quem se revolve no fundo destas páginas, por mais que o autor afirme (e nós tenhamos de acreditar) que desconhece espíritos tão irmãos.
O alívio derradeiro virá, sim, mas sem ninguém para aproveitá-lo. Maria, a amorável mulher do idoso, mata-se e mata (exactamente nesta inusitada ordem), dando execução ao pedido insonoro, à Munch, estampado em todas as bocas: "Mata-me".
É um livro breve mas duro e que não perde com uma releitura. Nela se fará ainda mais visível a engenhosa, matreira, arquitectura.
(Corpos Editora, 2005, 78 Pág., 15 euros)"