
IN "Povo de Guimarães"
DA TRAGÉDIA À ESPERANÇA
Em entrevista, Pedro Chagas Freitas revela-se como escritor, considerando que, apesar de os seus livros serem negros, "pode encontrar-se ali a esperança, que reside sempre na ternura, no amor, no carinho".
O gosto por escrever apareceu, em Pedro Chagas Freitas, muito cedo, com "aquelas poesias do amor, muito focalizadas no eu, nos problemas que o eu enfrenta: são as borbulhas que aparecem, a namorada que gosta de outro".
A partir do momento em que viu que o que escrevia, essas primeiras aventuras literárias, não tinham qualidade, apercebeu-se de que era necessário definir o caminho: "ou concluir que não era capaz de ser melhor do que isto, ou tentar aperfeiçoar", pois acredita "que a escrita é muito trabalhada pelo treino, por escrever".
Lê muito e considera que se não lesse não poderia saber se os seus textos tinham ou não qualidade. "A leitura é que me faz escrever. Se não for capaz de ler um grande livro, nunca irei ser capaz de escrever um livro".
Do jornalismo à literatura
Quando terminou o 12º ano, começou a trabalhar em jornalismo, sendo Chefe de Redacção da Revista Estádio D. Afonso Henriques, que abandonou para se dedicar aos estudos universitários, optando pelo Curso de Linguística, porque tendo "uma paixão obsessiva, quase doentia, pela língua portuguesa", pensou que seria o indicado.
Há três, quatro anos sentiu que poderia ter "jeito" para escrever, no momento em que começou a ver que a sua "escrita estava forte, isto é, que era ao mesmo tempo densa e fluída, que é o mais difícil em literatura: aglutinar a capacidade de ser fluente e, simultaneamente ser denso".
Viu que os seus textos tinham "pedaços de literatura de qualidade", pelo que continuou a trabalhar sempre mais e, após um ano, "arriscou" enviar o primeiro romance que escreveu, naquela altura, para escritores que admirava. "E isso, para mim, foi a prova dos nove: tive boas reacções, primeiro do Eduardo Brum e depois do Fernando Venâncio e, a partir daí, vi que podia, de facto, ter o tal jeito, o tal talento para escrever bons livros".
Após um ano em Lisboa, sentiu-se "algo vazio, porque não estava a ver o trabalho a aparecer, pelo que resolveu redigir uma carta de apresentação, completamente fora dos cânones habituais, e enviou-a ao director do jornal "A Bola". Para seu espanto foi convidado a trabalhar no jornal.
Quando frequentava o 2º ano do curso ganhou o Prémio Paul Harris, da Câmara Municipal de Faro, com o conto "Voo picado pelo subsolo do homem", que foi muito importante, porque lhe "permitiu acreditar que, de facto, tinha alguma substância o que eu escrevia".
No terceiro ano trabalha, também para o Desportivo de Guimarães e, depois, surgiu uma série de colaborações: o suplemento literário do Jornal de Notícias, o Jornal Ensaio, o Povo de Guimarães, uma revista mais direccionada para animais de estimação onde escreve ficções relacionada com animais.
Após o final do curso, trabalhou durante oito meses no departamento de livros genéricos da Editora Impala, "onde os livros são escritos com horário, como um operário que veste a sua bata, e pica o cartão à entrada". Dos 5 livros que escreveu, um vai sair agora "Um bébé, um nome, uma história".
Guionismo e publicidade
No último ano do curso, no âmbito da cadeira de Guionismo, escreveu guiões para curtas metragens, que foram escolhidas pelo professor para serem realizadas.
Estava de malas feitas para regressar a Guimarães, quando surgiu a possibilidade de trabalhar em publicidade, para escrever e criar anúncios, um tipo de escrita com características próprias que o fascinou, mas também entediou, "porque lidar com um cliente, que não é especialista na área, que quer dizer que, se calhar, se tiver este ponto final ali ficava melhor, chega a dar náusea".
De regresso a Guimarães tem alguns projectos na área da escrita criativa que gostaria de desenvolver junto de crianças do 5º e 6º anos, para os ajudar a gostar de ler e escrever, e de criar uma cadeira extracurricular, que permita aos alunos terem as ferramentas para escrever o que quer que seja, efectuar a sua escrita, poderem moldar a sua capacidade criativa e, ao mesmo tempo, observar o mundo.
Tem como grande objectivo viver do que escreve literariamente. "A ideia de poder delinear os meus horários só em função da escrita literária é uma ideia que me fascina, mas tenho a consciência de que em Portugal isso é muito difícil acontecer". A candidatura a uma bolsa de criação literária é uma das hipóteses que encara.
Cobrir a tragédia com a ternura
O POVO DE GUIMARÃES: Os seus textos publicados em "O Povo de Guimarães", tinham sempre um envolvimento triste, trágico. Sendo uma pessoa jovem, fazer textos com este ambiente acontece porquê?
PEDRO CHAGAS FREITAS: Esse ambiente é aquele que, infelizmente, eu observo. Sou uma pessoa um bocado desiludida com o mundo e, sendo assim, não posso escrever textos alegres.
Costumo dizer que um sofredor, para quem não o conhece, é uma pessoa alegre, porque uma pessoa que sofre muito está demasiado entretida a sofrer para o demonstrar. É um sofrimento interior que não passa cá para fora e, portanto, tenta esconder isso com uma capa de alegria.
O facto de serem textos tristes resulta disso mesmo, os cenários que construo são cenários interiores que me surgem. Não consigo explicar porque é que são assim os textos.
E este livro que vai ser publicado agora é, por incrível que pareça, o mais triste que já escrevi. É um livro que se custar tanto a ler como me custou a escrever, faz doer muito.
É o que eu sinto, estou desiludido e escrevo desilusão, o que não quer dizer que não tenha força para continuar e não seja uma pessoa, não digo optimista, mas realista. Estou um bocado pessimista em relação ao optimismo, e cada vez mais. Este ambiente negro... só consigo escrever assim. Não consigo escrever coisas alegres.
Curiosamente tive uma coluna de humor durante uns meses e, então, percebi que talvez as pessoas que mais sofrem sejam os humoristas. Dessa experiência percebi que um humorista para fazer humor tem de sofrer também e parece-me que o humor é mais difícil de escrever que o resto. Foi o que mais me custou, custou-me muito escrever humor.
E a esperança, que deve residir sempre nos jovens, de com a sua intervenção conseguir mudar alguma coisa no mundo, não existe em si, não se reflecte, ou poderá vir a reflectir, nos seus textos?
É capaz de existir. Nos meus textos há uma tentativa, inconsciente que só depois, quando leio, é que encontro, de cobrir a desilusão, a dor e as lágrimas, com a ternura, com os sentimentos, com o carinho. Quem lê um texto meu, pode ficar, ao mesmo tempo, deprimido e com esperança.
Acredito que um texto, como os que escrevo, pode levar as pessoas a reflectirem sobre o que fazem mal e não de uma maneira directa. Julgo que, com cenários negros e oferecendo às pessoas a possibilidade de verem que, por vezes, um gesto simples de ternura, de afeição, uma frase (costumo repetir frases que estão sempre a aparecer) pode ser a alavanca para uma melhoria e para a tal esperança.
Julgo que, apesar de serem livros negros, pode encontrar-se ali a esperança, que reside sempre na ternura, no amor, no carinho. E em todos os meus livros encontro isso, depois de os ter escrito, quando os leio, quando estou a corrigi-los (e corrijo-os uma. duas, três quatro, cinco vezes). Penso que pode residir lá alguma esperança também.
Tenho esperança, mas não sou utópico. O que faço é uma gota num mar imenso e pouco ou nada posso fazer para mudar o rumo dos acontecimentos e o que o ser humano, na sua essência, é. E a minha ideia é a de que o ser humano não é recomendável. Estou muito desiludido com o ser humano e cada vez mais. Mas tenho esperança e, quando vivo um momento bom, tento esticá-lo ao máximo. Um momento bom vale tudo.