O CAPITAL DE CHAGAS





 

Olhar com os olhos e tocar com a pele é a solução para todos os problemas do mundo. Olhar com olhos faria com que o ouro fosse simplesmente uma bosta de um metal e um diamante uma bosta de uma pedra mais brilhante. E os homens e os animais e o mundo não se alimentam de metais nem de pedras mais brilhantes. Os homens e os animais alimentam-se de comida para comer e de água para beber. E ainda do ouro de um abraço, do diamante de um sorriso. A loucura saudável é a solução para os problemas do mundo. A loucura que não se deixa embrulhar em presentes envenenados. A loucura que, tão somente isso, consegue olhar com os olhos e tocar com a pele. E valorizar pelo critério da suprararidade, da sempreraridade. E é só aquilo que realmente é valioso que é realmente raro. Mesmo que haja milhões, mesmo que haja a toda a hora, em todo o lado. E mesmo que haja milhões de abraços é sempre raro um abraço. E um louco sabe, pobre demente, que tem saudades do abraço até no próprio momento em que o abraço acontece. E o louco sabe, pobre demente, que um abraço acabado de dar é tão raro que nem apetece acabar. E para os loucos, como para a vida, o mais importante é, tão simplesmente, aquilo que é de facto mais importante. E se quer um abraço: abraça; e se quer sorrir: sorri; e se quer amar: ama. E não precisa de metais nem de pedras brilhantes. E não precisa de papéis verdes ou azuis ou vermelhos para saber que o que vale, o que é raro, é aquilo que o faz viver e que faz viver o mundo. Comida para comer, bebida para beber. E gente para viver. E é tão raro encontrar gente para viver. Gente que não valha papéis nem metais. Gente que valha a pena. Gente rara. Gente que olhe com os olhos e toque com a pele. Gente que não precise de intermediários para viver. Gente sem vendedores dentro. Gente tão gente que não precisa de publicidade, de anúncios ou de negociações. Gente que é uma pechincha apesar de ser uma raridade. Gente sem etiqueta. Gente sem preço. Terás capital para a comprar?

Na Terra de Ti




deita-se, cansado, o verso de adormecer em ti, a estrofe sem sonho que adormecido componho;


deita-se, cansado, o poema sem tecto, o menino deserto –


a saudade que sem ordem me ordena, o abraço que sem gente me condena.





adormeço na tua voz como o mar


adormece na pedra, como a criança


se corre e se berra.


adormeço na tua voz sem saber que é em ti que acordo, corro e recorro –


na tua voz como um verso, no verter molhado do teu corpo, poema insano da minha pele;


adormeço na tua voz, calado e em grito, a deixar de céu o chão que piso, a dizer-te em palavras


o milagre do teu olhar, o deus e o trono das tuas mãos de sempre.


adormeço na tua voz como se me fosse o herói vergado do filme da estrada, o vencedor pregado



ao pó dos dias, ao rumor do ouvido onde me sussurras a vida e onde me fazes irrepetível mim.





na terra onde se beija o teu rosto, há a lágrima que sem querer derramo, o frágil bebé


do teu colo, a concha e a lapa de um suor que em nós se perde de dono.


na terra onde se beija o teu rosto, adormeço na tua voz, cansado –


e estendo-me para o mundo na direcção de todo o lado.





queria saber dizer o que te sinto, saber explicar que vejo em ti o que nem deus se vê no mundo;


queria saber dizer o que sabe em mim quando me sei em ti.


queria saber dizer o que ninguém sabe dizer –


porque não se diz o que é como nunca se foi, o que é verbo sem pretérito, futuro sem fim, por certo.


queria saber dizer o que ninguém sabe dizer –


e apenas assim, na paisagem de nós, adormecer.

ENSAIO SOBRE AS PINOQUISICES


As crianças de hoje não prestam para nada. As crianças de hoje não prestam para nada porque os pais de hoje não prestam para nada. As crianças de hoje deviam estar no museu - e não na rua. E tudo porque os pais de hoje pensam que as crianças de hoje, as suas crianças, são cristais e não gente. Que nojo.

Os pais de hoje metem nojo. Metem nojo porque fazem as crianças de hoje ser nojentas. Ai que a criança cai, ai que o menino se magoa, ai que a menina está a chorar. Para a bosta com isso tudo. Para a bosta com o excesso de não-excessos. Para a bosta com crianças de museu. Eu prefiro crianças a sério - e não as crianças de brincar que só podem brincar se não correrem o mínimo risco de se magoarem. Para a merda com estes pais de hoje - com estes nojentinhos de hoje. As crianças de hoje não merecem os pais de hoje. Nenhuma criança merece os pais de hoje. Melhor: ninguém merece os pais de hoje. Que nojo.

Os pais de hoje são os reis das pinoquisices. Os reis da in-necessidade, os senhores da pucuinhisse. Os pais de hoje são os patronos de todos os Marias Amélias. E é por isso que depois os filhos dos reis das pinoquisices se tornam em verdadeiros pinoquiseiros. Que nojo. As crianças foram feitas para cair, para se magoarem, para rasgarem a pele e voltarem a ganhar pele. O mundo, o dos adultos e das crianças, é exactamente igual: estupidamente igual. Há que brincar, cair, magoar, levantar, voltar a brincar, voltar a cair, voltar a magoar, voltar a levantar. E a ordem pode ser trocada mas é sempre a mesma. Há que doer para viver: e até doer dá sabor a viver. É de pequeno que se percebe o caminho. E no caminho há que levantar sozinho. E não existe não levantar sozinho: quando cais, só podes levantar-te sozinho. Por mais mãos que te puxem, por mais braços que te agarrem: quando te levantas, levantas-te sozinho. E as crianças de hoje não se sabem levantar - porque os pais as impedem de cair. Que nojo.

As crianças de hoje não sabem o que é viver. As crianças de hoje são crianças de aviário - crianças que nunca saíram do fraldário. As crianças de hoje não sabem o que é viver porque viver é correr riscos. E correr riscos não é subir mais um nível no último jogo da Playstation ou da Wii. As crianças de hoje transformaram o ai da descoberta e o ui da queda que precede o erguer pelo Wii. Um bacoco e sem som interno Wii. Há uma Wii onde devia estar um ai ou um ui. As crianças de hoje não sabem o que é viver porque os pais de hoje não sabem o que é viver. Os pais de hoje vivem-se nas suas crianças e esquecem-se de que são elas, as crianças, que têm de se viver. E têm de ver o sol como têm de ver a chuva. E têm de gritar que dói como têm de saber como fogem ao que mói. Os pais de hoje são mais crianças do que as crianças, mais acagaçados do que o cagaço. Os pais de hoje pensam que para evitar o hoje devem evitar o hoje e todos os hojes. Mas hoje, isso é garantido, chega. Hoje chega e traz consigo tudo o que tiver de trazer: esteja a criança junto ao risco ou longe do risco, o risco vai chegar sempre à criança. É claro que há, hoje, perigos que antigamente não havia. Há as drogas e as nets e os tarados e os mil e um caminhos de tentação. Há os carros e as altas velocidades, há as doenças que se passam como pastilhas elásticas. É claro que há isso tudo e sempre vai haver isso tudo. Mas também o sol, a rua, os amigos que correm e saltam e gritam e partilham. Há o beijo, o abraço. Há descobrir, há experimentar. Há o haver. E o haver, para os pais de pinoquisices de hoje, é uma seca que mais vale não haver. Que mais vale não ver. Que nojo.

Já não se fazem crianças como antigamente. Já não se fazem crianças que passam o dia a pedalar e a fazer das mãos um planeta e do sonho um amigo. As crianças de hoje não sabem, porque os pais das crianças de hoje não sabem, que a pele das crianças foi feita para cair e para rasgar. As crianças de hoje não sabem que têm pele de criança - que se regenera à velocidade da luz e que é, ela mesma, uma forma de luz. As crianças de hoje não sabem, porque os pais das crianças de hoje não sabem, que os ossos das crianças são mais elásticos - para poderem ser os sonhos que as crianças sonham, os anseios que as crianças anseiam. As crianças de hoje estão escondidas de viver, apeadas de ser. As crianças de hoje são - mais do que os adultos de amanhã - as crianças de amanhã. As crianças de museu, que não sabem que estar vivo é a melhor coisa do mundo. De todos os mundos. De todos os universos e galáxias e o diabo e o deus a quatro ou a mil. As crianças de hoje são crianças que se abdicam de ser de hoje - crianças impedidas do hoje: impelidas a sobviver. A viver sob. Sob o tecto de um medo que não é delas. Sob o tecto de um medo viral – uma SIDA de alma, que destrói as defesas que nasceram para defender. Sim: sobviver. Mas sobviver – como sobreviver - é uma treta. Sobviver é uma treta para as crianças e para os adultos. Sobviver mata. Sobviver mata mais do que morrer. Que nojo.

A:SÓS


queria ser-te o sonho que te esqueces de sonhar, a alegria que te abdicas de gozar;
queria ser a lágrima feliz que se derrama na pele, o ai em ti como se mel.
não sei se me acreditas, se me queres, se me embraças – sei apenas que te sou em palpitações devassas.
no momento em que te fores nós, vou ser teu e meu, tu e eu – católico do teu corpo e ateu;
no momento em que te fores nós, vais ser toda a vida do meu sentir, toda a água do meu suor, toda a febre do meu querer – o gemido de dentro que me faz ferver.
no momento em que te fores nós, será a dois que se fará o mundo – e mesmo com todos estaremos a sós.

CARTA À MULHER QUE VOU ESCRAVIZAR


Os amores modernos que se vão encher de moscas. Os amores que nem coisam nem saem de cima que vão cobrir-se de bosta. Os amores que se mantêm de pé e que nunca se vergam e que nunca se moem e doem e esvaem e contraem que vão bugiar. E para bem longe. Eu sou contra os amores de brincar. Até porque, se são de brincar, já não são amores. Até porque, se são amores, já não são amor. Sou contra os amores de brincar. E isso, parecendo que não, é muito sério.


Amar com orgulho é um amor de merda. Amar com altivez é um amor de merda. Amor com orgulho e altivez nem sequer é amar – é degustar. De gostar. De amar é outra coisa. Nem sequer é uma coisa. Amar exige uma capacidade de resistência que poucos têm. Amar exige uma capacidade de resistência que só quem ama tem. Amar exige que ames. O acto de amar – é por isso que se chama amar – exige que se ame quem queres, na prática, amar. Amar exige amar. E amar, factualmente (e de facto), é estar aos pés de que se ama. Mesmo que estejam sujos, mesmo que cheirem insuportavelmente (e amar também é, tantas vezes, suportar) a chulé. Amar é estar aos pés de quem se ama. É ser, se necessário, os pés de quem se ama. Sem merdicas, sem pudores, sem inchaços bacocos: estar aos pés de quem se ama é a única maneira de amar. Se queres ser a mulher que eu vou amar, tens de ser a mulher que eu vou escravizar. E tens de ser, esquece os paradoxos e concentra-te nos felicidoxos, a mulher que me vai escravizar. Escravizar. Estupidamente escravizar. Todos os dias escravizar. Deliciosamente escravizar. Se queres ser a mulher que eu vou amar, tens de estar à altura de rastejar. Por mim, para mim. Até te doerem os joelhos, as costas, os pés e tudo o mais que me der na real gana que tenha de te doer. Eu, deste lado, garanto-te que farei o mesmo. Porque o amor, é por isso que é a única coisa que vale a pena nesta merda desta vida, tem de doer. Mas o não-amor, o quase-amor, o amor de algibeira, o amorzinho ou o amorzeco, dói muito mais. Ai.


Já que tem de doer, que seja amor. Já que tem de doer – e tem de doer (por mais que queiras acreditar, e faz bem acreditar, que não, viver tem de doer) – que seja amor. Amor do bom, do que te leva ao mais fundo de ti, sim; mas também do que te leva ao mais alto de ti, ao mais pico de ti – à absoluta euforia, ao mais demencial orgasmo de ser. Já que tem de doer, que seja até à última gota – de suor, de esperma. De vida. Até à última gota: eis a maior das filosofias. Eis a única das filosofias. A única que vale a pena. A única que não mete pena. Até à última gota: viver. E também: até à última gota sofrer. Tudo até à última gota. Contra o marasmo, marchar marchar. Contra o enfado, viver viver. Já que tem de doer, que doa até à última gota. Espero, se queres mesmo ser a mulher que vou amar, que tenhas tomado nota.


E agora nota. Nota que quero, todos os dias, todo o dia de todos os dias, as filhas das vacas das 24 horas dos filhos das pêgas dos 365 dias do cabrão do ano, estar aos teus pés. Submissamente aos teus pés. Todos os dias, todo o dia: a ser teu. Nada mais do que isso: ser teu. Viver com o único objectivo de te viver, comer com o único objectivo de ter força para te ser a força para continuares, beber com o único objectivo de ter água em mim para te dar banho, se for preciso, com a minha língua. Viver com o único objectivo de te manter viva – e de, assim, me manter vivo enquanto teu ser escravizado. Orgulhosamente escravizado. Quero passar os dias a beijar-te os pés se for passar os dias a seres beijada nos pés aquilo que te faz feliz. Quero ser o chão que pisas, a cama em que te deitas, o papel higiénico que te limpa o rabinho. Quero ser exactamente tudo o que quiseres, tudo o que me quiseres. Porque é a ti, e só a ti com tudo o que és e queres e precisas, que quero. Quero tudo o que quiseres porque é só a ti que quero. Esta trampa é tão fácil de explicar que nem percebo porque é necessário escrever tantas palavras para o explicar. Mas cá vai de novo.


Quero que sejas minha escrava. Tens de ser minha escrava. Tens de ser a minha tudo. Esquece a panisgagem de seres a minha mais-que-tudo – isso é treta de poeta que quer comer uma gaja ou mais que uma gaja. Ser a mais-que-tudo é impalpável, é uma conceptualização abstracta que nada diz. Eu não. Eu não quero que tu sejas a minha mais-que-tudo. Eu não quero bullshits dessas. Eu quero que sejas a minha tudo. E a minha tudo tem de ser exactamente tudo. E não pode ser menos do que isso: tudo. Tem de ser a minha cozinheira se me apetecer comer, a minha garrafa de água ou de vinho se me apetecer beber. Tem de ser a minha senhora se me apetecer snobar e a minha prostituta se me apetecer fornicar. Tem de estar, sem parar, onde eu quiser estar; tem de fazer, sem parar, o que me apetecer concretizar. Tens de ser, repito, a minha tudo. A minha irreversivelmente tudo. A minha só tudo. Tens de ser o que eu sou como eu vou ser o que tu és. E a verdadeira fusão não é a de duas pessoas que se amam – é a de duas pessoas que se exploram. Eu quero explorar-te toda. Eu exijo explorar-te toda. E sem sequer direito a indemnização ou discussão. Explorar-te toda. E exijo – Deus te livre de não o fazeres – ser explorado todo. Não deixes nada por tocar, nada por sentir, nada por escravizar. Não deixes nada por viver: nada por me viver. Faz de mim o teu tudo. É isso que te ordeno. Faz de mim o teu tudo. E é tudo.