Segunda-feira, Novembro 09, 2009 

Aqui: de_fe_cada





Para enfrentar um “não” é fundamental, antes de mais, adoptar uma postura afirmativa.  Dizer sim à dor. E recusar a desistência. O “não” é feito de uma matéria elástica – semelhante à borracha. Um “não”, devidamente trabalhado, é um “sim” virado ao contrário. E um “sim” virado ao contrário não deixa de ser um “sim”. Acreditar que um “sim” virado ao contrário é, na realidade, um “não” é como acreditar que uma mulher virada ao contrário é um homem. Uma mulher virada ao contrário é, na pior das hipóteses, um 69 bem feito. Mas é natural que muitos não o saibam. É tudo, somente, uma questão de matemática: de metemática. E a matemática, nos dias que correm, é pouco importante. É, somente, uma junção de números com números. Nada de realmente decisivo, já se vê. Pelo menos para aqueles que nunca vão deixar de ser zeros.

 


- Doeu?

- Doer nasce de dentro. A violência física não é passível de causar dor. A não ser quando és agredido externamente por danos que te foram causados internamente.

- Um murro vomitado.

- Um murro defecado.

- Sim, isso. Os murros são, de facto, uma merda.




Segunda-feira, Novembro 02, 2009 

Aqui: co_incidências




1.

 

A pior mulher do mundo: Nania estava com essa frase na cabeça: a pior mulher do mundo. Não sabia, ainda, de onde tinha lhe tinha chegado – nem sequer a quem se referia. Mas aquela frase – cinco simples palavras que, unidas, compunham uma ideia clara e objectiva – não lhe abandonava a mente: a pior mulher do mundo. Pensou mais uns momentos sobre o assunto, abanou - “não sou eu, com certeza; que tolice!” - a cabeça. E continuou, com ternura, a esquartejar o corpo de Fernando, o seu marido de há mais de duas décadas.

 

2.

 

Para Guelda, o corpo era, mais do que um repositório de músculos e de nervos e de ossos, um repositório – “elas estão espalhadas por cada centímetro, por cada órgão” - de ideias. “Eu sempre disse que ele não era um homem de ideias fixas”, dizia, enquanto observava, serenamente, os bombeiros recolherem, de uma cave esconsa, o corpo, aos pedaços, do seu pai.

 

3.

 

Ao olhar, com atenção, para aquele corpo que, em vários pedaços, havia sido colocado na sua marquesa da morgue, Vivian ficou estarrecida com aquilo que estava a ver. Era, na boca do cadáver, um brinco de cores excêntricas. E era seu.

 

4.

 

Guelda era – “como uma irmã: desde os tempos dos bancos da escola primária” – a melhor amiga de Vivian.  “Vá, não reajas assim. Só te estou a proteger da minha mãe. Ela tinha ideias bem piores”, dizia-lhe, com carinho. E continuava, com força, a mexer na faca que, bem fundo, lhe havia espetado no estômago.

 

5.

 

No funeral de Vivian, Guelda – “uma forma de homenagem” – fez questão de usar os brincos preferidos da falecida amiga. “Ele há coincidências”, exclamou, ao perceber que, ao seu lado, a sua doce mamã usava uns iguaizinhos.

 

Quarta-feira, Agosto 26, 2009 

Aqui: o excerto



"Fizeste tudo o que tinhas de fazer para respirares tranquilamente. Então: porque não respiras?"



(in "Já Alguma Vez Usaste o Sexo Sem Necessitares de Usar o Corpo?", 2006)

Quinta-feira, Outubro 25, 2007 

Aqui: o excerto


In "Já Alguma Vez Usaste o Sexo sem Necessitares de Usar o Corpo?" (Corpos Editora: 2006)

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"Tu sabes: a grande arma que tens para atingir quem não gostas é a dor; com ela: podes manipular quem quer que seja; basta: conheceres ao pormenor o alvo, saber quais os pontos onde deves tocar; agora imagina: alguém viciado em dor; pensa: que arma poderás ter frente a quem dava tudo por um pedaço de dor? Ou: que resistência poderás oferecer a quem dava tudo por um pedaço de dor? Só tens: uma solução; só podes: tornar-te um produtor incansável de felicidade; só podes: fazer com que esse alguém seja a pessoa menos sujeita à dor que conheces; imagina: tu a dares tudo o que tens para fazeres alguém ser feliz; imagina: tu a dares tudo o que tens para que quem não gostas possa não sofrer.
Pensa: afinal é simples ser feliz; basta: dedicares os primeiros anos da tua vida a criar inimigos; e: tornares-te um viciado em dor."


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Quinta-feira, Outubro 04, 2007 

Aqui: o excerto


In "O Evangelho da Alucinação" (Corpos Editora: 2006)

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A chave na porta, barulho, ranger.
O porta-chaves daquele aniversário em que caminhámos no limiar de uma ponte sobre o mar, o aniversário em que me disseste
- Vou partir, olho cada onda que bate e sinto-me dentro de cada uma delas, uma espuma branca, sem futuro, que existe aqui e ali deixa de existir, segundos de vida, de adrenalina. Vou partir, vou embater contra um pontão de fim, vou partir.
Entro devagar, pés ausentes.
Nesse dia desse aniversário eu não acreditei que eras verdade como nunca foras, não entendi que sentias o que eras como nunca ninguém sentiu – nesse dia eu não consegui entender que houve um engano de quem manda nisto que somos, e quem recebeu o presságio foi a personagem principal do presságio. Nesse dia só soube rir das tuas palavras. Abraçar-te, amar-te – e querer-te mais, sempre mais, com a certeza de que os anos por vir eram mais do que os passados, com a certeza de que os beijos que te dei eram bem menos do que aqueles que a partir dali te daria. Com a certeza de existir, sempre a existir – porque sabes que existir não é viver, existir é o exacto antónimo de viver.
As meias pretas que usavas sempre que andavas pela casa, roçadas em baixo
- Estes são os meus chinelos
e rias-te com o riso que consigo ver, que só consigo ver, um riso que está dentro dos meus olhos.
Vejo contigo dentro, és uma cortina que envolve os palcos que vivo.
E caminhavas, corrias e saltavas, o teu corpo em ebulição, sempre erecto, sempre saúde. Como poderia eu algum dia perceber que um corpo pode ser máscara?
No dia do aniversário pediste-me a mão, a mão na mão, eu em ti, tu em mim, pediste-me a mão e colocaste-a sobre o teu peito, não sorriste nem reagiste – respiraste, só respiraste, e eu limitei-me a sentir o movimento do teu respirar.
- Eu sou isso que sentes, subo e desço, vou e venho, umas vezes mais depressa, outras vezes mais devagar, sentes o movimento, sou eu
disseste-me depois de longos minutos em que foste o olhar sem palavras, em que foste substância sem conteúdo.
A nossa casa. O tapete limpo, imaculado, desde o dia em que me pediste perdão por quereres ser mulher a sério e arrumar e limpar.
- Hoje vais ter uma esposa, amor
e arregaçaste as mangas
- Desculpa-me se te estou a desiludir, mas hoje vou ser esposa
e riste, riste muito, riste alto – eu abracei-te, lembro-me bem, amor, abracei-te, apertei-te, e senti uma sensação estranha, como que um acenar de adeus nas tuas mãos.
Nas tuas mãos, o porta-chaves que abriu a porta de pó desta casa que foi nossa, naquele dia o porta-chaves sentiu a tua vida, os teus movimentos – que estranho é pensar que o porta-chaves está cá e tu não, um simples porta-chaves sobreviveu-te. Naquele dia daquele aniversário em que me deste este porta-chaves eu não entendi que eras mais verdade que nunca. Naquele dia eu não entendi que já não eras minha nem da vida, vagueavas numa outra esfera a que me recusaste entrada, distante de mim e de ti, uma esfera de sombras, de nevoeiros, de canções lúgubres.
Naquele dia eu não entendi que te despedias dos aniversários.
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Terça-feira, Julho 10, 2007 

Aqui: o excerto

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In "Mata-me" (Corpos Editora, 2005)
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Os seios paralíticos da menina paralítica.
Os contornos da anca.
A excitação.
Ela a olhar-me, ela a saber que a olho, a medir-me de cima a baixo, a tocar-me na excitação com o olhar que me diz: lave-me entre as pernas.
Lave-me entre as pernas.
A minha mãe morta a virar-me costas naquele momento, a desistir de me explicar o que já então, há muitos anos, percebeu que eu jamais seria capaz de perceber.
A ternura não existe.
A esponja na minha mão erecta e nas ancas da paralítica.
Maria a subir as escadas, Maria sempre a subir as escadas, Maria a pisar cada escada, cada degrau, como se receasse pisar uma mina que a fizesse explodir de dor, que a enchesse de si e do amor que não evita.
O amor que a enche de mim e a afasta de si.
A minha mão a fugir da esponja.
A menina a pedir-me: toca-me, dá-me sensações de vida num corpo morto, prova-me de uma vez por todas que mesmo incapaz, que mesmo quieta consigo sentir, que mesmo quieta consigo ser normal em alguma coisa. Toca-me, disse ela. Quero ser normal, quero ser mulher. Nunca fui mulher, sabias, nunca fui penetrada, nunca fui algo que não uma virgem, nunca perdi o que a nascença me deu.
A ternura não existe.
A minha mãe.
No dia em que perdi a capacidade de andar, nesse mesmo dia, ia perder a virgindade na parte de trás do carro de um namorado que tinha e que já não tenho, um namorado que percebi depois, quando tive o acidente e deixei de ser capaz de andar, que era um namorado do meu corpo, do meu aspecto, do meu andar, da minha normalidade, e que me deixou no preciso momento em que percebeu que o sexo era uma impossibilidade, uma utopia.
O sorriso nos olhos dela, o sorriso da ironia, o sorriso da dor, o aspecto falseado da dor no contorno dos contornos que tem a alma dentro dos olhos dela.
A esperança de não ter esperança, a liberdade de ser animal sem ambições, de ser passado sem futuro, de ser rasto a ser diluído pelo correr do vento, eu.
Maria a subir as escadas.
A televisão que acaba de mostrar a carne já cortada, a carne indefesa, a carne que vai ser comida sem que alguém se digne perguntar-lhe se quer ser comida, a carne paralítica que vai perder a virgindade no dia em que vai perder a existência, ou talvez transformar-se em outra existência, uma existência fechada, uma existência dentro de outra existência, ou mesmo uma existência dentro de outras existências, uma carne que vai morrer para dar mais uns minutos de vida a seres que até não se importariam de morrer, seres que pensam e que não queriam pensar ou talvez até quisessem pensar antes de pensar e verem que de nada vale a pena pensar, seres que pensam e não deviam pensar.
O sexo escuro da menina.
A minha mãe, o sexo escuro da minha mãe numa manhã em que acordei mais cedo e quis ir para o quarto dormir ao lado dela. O sexo escuro da minha mãe a descoberto da camisa de dormir.
O meu pai morto, nessa mesma manhã em que eu acordei mais cedo e vi o sexo da minha mãe e o olhei admirado.
O meu pai morto.
Maria a subir as escadas.
A esponja a escorregar até ao buraco morto da menina paralítica.
A minha mãe morta a aproximar dos meus olhos o sexo sem saber que estava a aproximar o sexo dos meus olhos, a pensar que estava apenas a aproximar-se do meu pai, a beijá-lo, a dizer-lhe: acorda amor.
Acorda amor.
A menina a reagir ao toque da esponja. A menina a mentir-se, a mentir-me, ao simular uma reacção de um corpo morto.
A minha mãe a insistir no quarto do meu pai e dela: acorda amor.
O sexo descoberto dela, o sexo sempre descoberto dela.
A ternura não existe.
Maria ainda a subir as escadas.
A televisão que se desliga.
Negra.
A minha mãe a abanar o peso morto do meu pai, a passar-lhe a mão pela face, pelo corpo.
O sexo dela, a cor rosada e seca do sexo dela.
A vergonha.
A paralítica a agarrar-me na mão com os dentes e a conduzi-la até ao meio, até bem ao meio dos seios dela, a fazer movimentos rotativos com a cabeça que faziam com que a minha mão fizesse movimentos rotativos. A menina a dizer-me: beija-me os mamilos.
Beija-me os mamilos.
Maria a terminar de subir as escadas. Maria a ultrapassar o último degrau.
A minha mãe a pedir-me: toca no coração do teu pai, passa a mão no coração do teu pai, vê se o coração está a bater. A minha mãe sem coragem a pedir-me ajuda.
O sexo rosado dela.
Eu a hesitar enfiar a minha língua nos mamilos erectos da menina.
Maria já no andar de cima. Maria a centímetros da porta.
A inocência de um menino que era eu a dizer à minha mãe morta: o coração do papá não bate.
O coração não bate.
O sexo peludo da minha mãe a fugir-me do olhar, a ser levado para bem longe pela morte do meu pai, pelo choro da morte do meu pai no rosto, na alma, no corpo aonde pertence o sexo rosado da minha mãe.
As minhas mãos nos seios da menina.
O olhar dela, rebelde.
A minha língua a aproximar-se do mamilo direito para mim e esquerdo para a paralítica que vou lamber.
Maria a abrir a porta.
A minha mãe desmaiada de pranto no chão.
O sexo rosado de novo à mão dos meus olhos.
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Quarta-feira, Dezembro 20, 2006 

Aqui: o excerto


"Por vezes: acreditas conhecer o teu objectivo; mas: o objectivo que te move não é o objectivo que julgas objectivo; mas sim: o objectivo que te faz delineares aquele objectivo enquanto tal; então: o teu objectivo real é o objectivo do objectivo.
Imagina: um atleta de alta competição; imagina: o atleta de alta competição a traçar o seu objectivo; imagina: o atleta de alta competição a traçar como objectivo ser campeão do mundo; para ele: é aquele o objectivo que o move; agora imagina: o atleta a ser realmente campeão do mundo; imagina: o atleta a celebrar o seu feito; imagina: ele em casa a tentar sentir o que julgava que iria sentir quando alcançasse o seu objectivo; mas: não o sente; imagina: o atleta de alta competição frustrado por ter alcançado o seu objectivo; porque: não era aquele o objectivo; tu sabes: o objectivo do atleta era a sensação por detrás do objectivo; se não sentes a sensação: é como se não tivesses alcançado o objectivo.
Agora analisa: qual é de facto o teu objectivo?"

In "Já Alguma Vez Usaste o Sexo Sem Necessitares de Usar o Corpo?" (Corpos Editora, 2006)