O segredo para ter mais não é ter mais; é precisar de menos.

E saboreá-lo ainda mais. O gajo mais feliz do mundo não é, nunca é, o gajo que tem mais coisas do mundo. O gajo mais feliz do mundo é, é sempre, o gajo que precisa de menos coisas do mundo. O gajo que faz de um prato de sopa um banquete, o gajo que faz de um T1 um palácio, de uma cama que geme o mais faustoso dos leitos de prazer. O gajo mais feliz do mundo é o gajo menos precisado do mundo. O gajo que não precisa
de mais do que aquilo que tem para ter tudo aquilo que quer ter. O segredo para a felicidade é não ter segredo nenhum. O segredo para a felicidade é valorizar a preço de ouro o que se tem e valorizar a preço de merda aquilo que não se tem. E é mesmo assim: o que tens é ouro e o que não tens é merda. E é só o facto de tu quereres o que não tens que eleva o valor do que não tens a um valor, por vezes, ainda mais elevado do que aquilo que tens. Aprende de uma vez por todas: nasceste com tudo aquilo de que precisas. Então aproveita-o. Aproveita-o em pleno. Aproveita-te em pleno. É claro que podes, e deves, querer mais. Querer mais não é errado, nem sequer é deprimente. Querer mais é fixe. É querer mais que faz o mundo andar. Quer mais. Quer todos os dias mais. Mas nunca te deixes ser menos só porque queres mais. Nunca te contentes com o que tens; mas, mais ainda, nunca fiques descontente com o que não tens. O que tens tem de nunca te deixar contentado. Mas tem, ainda assim, de te deixar contente.

(desenho de Doroteia Pinto)
Que nunca te proíbas do prazer, pois é apenas nele que se proíbe o morrer.
Que nunca a noite seja somente escura, que nunca te esqueças de que o suor também cura.
E que gemas o ai sem pensar no tempo, e que o orgasmo seja o ai de todo o momento.
E que ames com o corpo o que é de alma, e que sejas do pecado, do que não podes e amas, do que te faz amar todas as camas.
Não há medo que apague o sonho,
não há não posso que apague o quero - e que sejas o faço e nunca apenas o espero.
Não há lágrima que apague o fogo, não há dor maior do que fugir do que dói – e que sejas sempre o que é e nunca o que já foi.
Que nunca te proíbas do prazer, pois é apenas nele que se proíbe o morrer.

(desenho de Doroteia Pinto)