
In "O Evangelho da Alucinação" (Corpos Editora: 2006)
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A chave na porta, barulho, ranger.
O porta-chaves daquele aniversário em que caminhámos no limiar de uma ponte sobre o mar, o aniversário em que me disseste
- Vou partir, olho cada onda que bate e sinto-me dentro de cada uma delas, uma espuma branca, sem futuro, que existe aqui e ali deixa de existir, segundos de vida, de adrenalina. Vou partir, vou embater contra um pontão de fim, vou partir.
Entro devagar, pés ausentes.
Nesse dia desse aniversário eu não acreditei que eras verdade como nunca foras, não entendi que sentias o que eras como nunca ninguém sentiu – nesse dia eu não consegui entender que houve um engano de quem manda nisto que somos, e quem recebeu o presságio foi a personagem principal do presságio. Nesse dia só soube rir das tuas palavras. Abraçar-te, amar-te – e querer-te mais, sempre mais, com a certeza de que os anos por vir eram mais do que os passados, com a certeza de que os beijos que te dei eram bem menos do que aqueles que a partir dali te daria. Com a certeza de existir, sempre a existir – porque sabes que existir não é viver, existir é o exacto antónimo de viver.
As meias pretas que usavas sempre que andavas pela casa, roçadas em baixo
- Estes são os meus chinelos
e rias-te com o riso que consigo ver, que só consigo ver, um riso que está dentro dos meus olhos.
Vejo contigo dentro, és uma cortina que envolve os palcos que vivo.
E caminhavas, corrias e saltavas, o teu corpo em ebulição, sempre erecto, sempre saúde. Como poderia eu algum dia perceber que um corpo pode ser máscara?
No dia do aniversário pediste-me a mão, a mão na mão, eu em ti, tu em mim, pediste-me a mão e colocaste-a sobre o teu peito, não sorriste nem reagiste – respiraste, só respiraste, e eu limitei-me a sentir o movimento do teu respirar.
- Eu sou isso que sentes, subo e desço, vou e venho, umas vezes mais depressa, outras vezes mais devagar, sentes o movimento, sou eu
disseste-me depois de longos minutos em que foste o olhar sem palavras, em que foste substância sem conteúdo.
A nossa casa. O tapete limpo, imaculado, desde o dia em que me pediste perdão por quereres ser mulher a sério e arrumar e limpar.
- Hoje vais ter uma esposa, amor
e arregaçaste as mangas
- Desculpa-me se te estou a desiludir, mas hoje vou ser esposa
e riste, riste muito, riste alto – eu abracei-te, lembro-me bem, amor, abracei-te, apertei-te, e senti uma sensação estranha, como que um acenar de adeus nas tuas mãos.
Nas tuas mãos, o porta-chaves que abriu a porta de pó desta casa que foi nossa, naquele dia o porta-chaves sentiu a tua vida, os teus movimentos – que estranho é pensar que o porta-chaves está cá e tu não, um simples porta-chaves sobreviveu-te. Naquele dia daquele aniversário em que me deste este porta-chaves eu não entendi que eras mais verdade que nunca. Naquele dia eu não entendi que já não eras minha nem da vida, vagueavas numa outra esfera a que me recusaste entrada, distante de mim e de ti, uma esfera de sombras, de nevoeiros, de canções lúgubres.
Naquele dia eu não entendi que te despedias dos aniversários.
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